Clarice.
“As personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades - uma magia nascida da exacerbação da palavra." *
Bem, pra quem não sabe, a moça Clarice está em exposição desde o último dia 24 no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. O Museu recém inaugurado, é famoso pelos recursos audio-visuais e interatividade com o público, com Clarice, não é diferente. O abre-alas da exposição é A Hora da Estrela, não pela excepcionalidade do livro, mas pelos personagens dele, verdadeiros Olímpicos e Macabéas que perambulam pela Praça da Luz todos os dias. Sim, uma ucraniana, popular por vocação. Só isso já faz dela excepcional.
Como ainda não fui até lá, não vou discorrer aqui sobre o que não vi, mas colocar aqui o primeiro texto que li de Clarice. Trata-se de um prefácio escrito pela autora que se passa pelo narrador do livro, Rodrigo S.M.
"DEDICATÓRIA DO AUTOR"
(Na verdade Clarice Lispector)
Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumman e sua doce Clara que hoje são ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra muito escarlate como meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me ao meu sangua. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À "Morte e Transfiguração", em que Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos decafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos - a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, a todos esses profetas do presente que a mimme vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão que sou, eu enviesado, enfim que é que há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever:
E - e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também.
Não se pode dar a prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.
Esta história acontece em estado de emergância e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo ma dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amem para nós todos."
Na verdade, eu sinto saudade de Clarice. De saber como ela enxergaria o mundo hoje. Sou sedenta pelos aflitos com a palavra assim como aqueles que são aflitos também com o mundo.
Tenho sede de desespero, de inquietação. Mas quando ela me olha, sou uma lagoa. Sou para contemplação e inspiração dos aleijados de bom senso. Sou filha dos que ainda não cresceram. Sou uma experiência musical sem talento para música. Vós? Espero que encontre uma resposta para a morte dos que te tangiram a alma. E que acredite. Acredite, chorando.
Bem, pra quem não sabe, a moça Clarice está em exposição desde o último dia 24 no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. O Museu recém inaugurado, é famoso pelos recursos audio-visuais e interatividade com o público, com Clarice, não é diferente. O abre-alas da exposição é A Hora da Estrela, não pela excepcionalidade do livro, mas pelos personagens dele, verdadeiros Olímpicos e Macabéas que perambulam pela Praça da Luz todos os dias. Sim, uma ucraniana, popular por vocação. Só isso já faz dela excepcional.
Como ainda não fui até lá, não vou discorrer aqui sobre o que não vi, mas colocar aqui o primeiro texto que li de Clarice. Trata-se de um prefácio escrito pela autora que se passa pelo narrador do livro, Rodrigo S.M.
"DEDICATÓRIA DO AUTOR"
(Na verdade Clarice Lispector)
Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumman e sua doce Clara que hoje são ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra muito escarlate como meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me ao meu sangua. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À "Morte e Transfiguração", em que Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos decafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos - a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, a todos esses profetas do presente que a mimme vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão que sou, eu enviesado, enfim que é que há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever:
E - e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também.
Não se pode dar a prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.
Esta história acontece em estado de emergância e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo ma dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amem para nós todos."
Na verdade, eu sinto saudade de Clarice. De saber como ela enxergaria o mundo hoje. Sou sedenta pelos aflitos com a palavra assim como aqueles que são aflitos também com o mundo.
Tenho sede de desespero, de inquietação. Mas quando ela me olha, sou uma lagoa. Sou para contemplação e inspiração dos aleijados de bom senso. Sou filha dos que ainda não cresceram. Sou uma experiência musical sem talento para música. Vós? Espero que encontre uma resposta para a morte dos que te tangiram a alma. E que acredite. Acredite, chorando.

2 Comentários:
... acredito, sei e sinto.
Tb sinto falta de Clarice...
Mas sinto muito mais ainda da minha amiga Gabys..Principalmente quando leio o blog lindo dela...
Acho que tenho novidades...acho... Vamos esperar mais uma ou duas semanas, como boa moça precavida.
Torça por mim!
beijinhos
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